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Imagine a seguinte situação: você entra em uma padaria em Santa Catarina ou no Rio Grande do Sul e, do seu lado, uma dona de casa pede quatro cacetinhos. Não parece um absurdo? Calma, ela simplesmente estava querendo comprar quatro pães franceses. A palavra vem de Portugal – é assim que os portugueses se referem aos pãezinhos frescos – e, como nesses estados há muitos lusitanos donos de padaria, acabou sendo muito usada nessa região também. É assim, cheio de peculiaridades e ainda com forte tradição europeia, que o Sul do país mostra toda sua brasilidade.

 

Aliás, há várias expressões que são típicas da região. É muito comum no Rio Grande do Sul, por exemplo, comer “cacetinho com chimia”, no café da manhã. Esquisito? Mas a combinação nada mais é do que pão francês com geleia.

 

Nessa região, usa-se muito “guri” em vez de “menino”, e o que é conhecido em boa parte do Brasil como “bidê” vira “mesinha de cabeceira” em algumas regiões gaúchas. E, claro, há uma profusão de “bah” ou “tchê”. "Lá também é comum usar o pronome ‘tu’ como forma de tratamento", observa a professora de Linguística Aparecida Negri Isquerdo, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), uma das organizadoras do ainda inédito Atlas Linguístico do Brasil.

 

Mesmo com o “tu”, em várias localidades o verbo é conjugado na terceira pessoa do singular. Assim, são comuns frases como "tu vai”, “tu sabe”, “tu viu”. Errado? Nada disso. "As pessoas tendem a achar que a língua do outro é mais feia, mas é preciso respeitar as gírias e particularidades de cada local", ressalta a professora.

 

A herança europeia pode ser vista nas tradicionais festas sulistas, como a Oktoberfest, que acontece em Blumenau (SC), ou mesmo no Carnaval eletrônico, mais popular por essas bandas que as escolas de samba do Sudeste, os desfiles de Parintins no Norte ou as marchinhas e o axé no Nordeste.

 

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Amizade e culinária

 

Dos europeus, a cultura sulista também herdou certo resguardo. Segundo o presidente da Coalizão Brasileira pela Diversidade Cultural, o cineasta Geraldo Moraes, os habitantes de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tendem a ser mais fechados no trato com as pessoas de fora. "Essa é uma característica herdada dos imigrantes europeus, que são mais reservados", afirma. Pode ser um choque de realidade para o descontraído carioca ou o efusivo nordestino...

 

Se você é de fora e quer driblar essa aparente frieza, aceite os convites para tomar chimarrão, um chá feito com erva-mate quente, servido em cuia especial. Não tem nada melhor para espantar o frio, e é uma porta de entrada para conquistar amizades também.

 

Outro costume que une comida com boa conversa é o churrasco – a fama dos gaúchos nessa área atravessou fronteiras e alcançou os quatro cantos do Brasil. O galetinho na brasa e o charque – conhecido em outras regiões como carne seca, carne de sol ou jabá – também fazem o maior sucesso por lá. Eles adoram preparar um assado na brasa, conversando por horas a fio, bebendo um chimarrão. No Paraná, a preferência é o barreado, uma mistura de carne e toucinho servidos com arroz e farinha de mandioca.

 

Foto: Ney de Souza
Foto destaque: Carlos Ruggi

 

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