Passaporte na mão e idiomas na bagagem
Para psiquiatra, famílias em constante mudança devem adaptar-se aos novos lugares
Para muitos, viajar é uma delícia. Com a família, então, nem se fala. Se a profissão exige, melhor ainda. Pelo menos, no caso do engenheiro italiano Pier Paolo, que levou a esposa, a advogada Sueli Morello, para várias partes do mundo até 1990. Na época, a carioca decidiu que era hora de a filha Sheila, na época com 9 anos, parar de trocar tanto de escolas e concluir os estudos em um colégio no Brasil.
Dias de casados
As andanças da família começaram logo após o casamento de Pier Paolo e Sueli, em 1978, ano em que a carioca se formou em Direito. Ela, no entanto, não chegou a exercer a profissão de advogada naquele momento, já que, após a união, ambos mudaram-se para a Itália. Um ano depois, novo destino: Iraque.
Dessa viagem, Sueli guarda lembranças tensas. “Estávamos no país quando começou a guerra Irã-Iraque, em 1980. Fomos embora com as bombas caindo perto de nós”, afirma. Nem o nascimento de Sheila, em 1981, na Inglaterra, diminuiu as frequentes mudanças do casal.
Conciliar tantas transferências só começou a ficar mais difícil na Venezuela, onde a família permaneceu por dois anos. Foi lá que a carioca desempenhou outra profissão, lecionando inglês. "Vivemos uma experiência complicada, pois, além de todos os problemas de adaptação ao país e ao idioma novo, a Venezuela passava por uma crise. Logo que chegamos, aconteceu o Caracaço (uma revolta social em repúdio a medidas neoliberais adotadas pelo Governo)", lembra.
De volta ao Brasil

Sheila, Sueli e Thais
A advogada decidiu, então, trazer a menina ao Brasil, para que a pequena concluísse os estudos. “O português foi a terceira língua que Sheila aprendeu, depois do inglês e do italiano.” Mãe e filha foram morar então no Rio de Janeiro. Pier Paulo, porém, continuou trabalhando em países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar.
“Passamos a visitá-lo só nas férias escolares”, explica a advogada, que, em 1993, teve a segunda filha, Thais. Em 2002, depois de 36 anos na firma italiana, o engenheiro pediu demissão para ficar mais perto da família. Atualmente, trabalha em Fortaleza (CE). “Ficou bem melhor, porque a cada 15 dias ele vem para cá, e as meninas estão sempre indo para lá”, acrescenta a advogada.

Pier Paolo, Sueli e as filhas, no dia do aniversário de 15 anos de Thais
Sueli não reclama das viagens que fez. Pelo contrário. “Adoro viajar. É bom para o crescimento cultural e as recordações nunca são apagadas da memória. Há também a compensação financeira, que permite dar melhor condição de vida à família”, afirma. Em 2000, ela voltou a trabalhar como advogada e, três anos depois, abriu seu próprio escritório.
Porém, não é todo mundo que se adapta a esse estilo de vida, reconhece. Além de toda a influência cultural, o idioma é diferente. Principalmente, para as crianças. "Minha filha se ressentia em ter de deixar seu quarto, sua casa, sua escola, seus amiguinhos, seus brinquedos, enfim, o mundo criado por ela", comenta a advogada.
Psicólogos acreditam que apenas o diálogo e a união podem minimizar essas perdas. Além disso, a mãe não pode mostrar que está insatisfeita com a mudança, para não deixar os pequenos inseguros com a nova realidade. É o que acredita a psiquiatra da Infância e Adolescência Ivete Gattás, assistente da Unidade Psiquiátrica da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“Mas se a família for separada, pode provocar quadros de ansiedade e depressão na pessoa que estiver em constante mudança”, afirma. Porém, se esse não for o caso, as pessoas podem fortalecer ainda mais seus laços e aproveitar ao máximo cada experiência na nova casa. Elvis Presley soube expressar bem este sentimento na música Home is where you heart is (“Lar é onde o coração está”). Até que a vontade de parar estabeleça seu limite, como foi o caso de Sueli.
Fotos: Arquivo pessoal
Como é a vida de quem se aventura trabalhando pelo Brasil, sem morada fixa





Enviar e-mail
0 comentário nessa matéria